Pular para o conteúdo
Educando em Casa
BibliotecaA história por trás

Monges copistas da Idade Média: como o scriptorium salvou os livros da Antiguidade

Como os monges copistas da Idade Média, no scriptorium, salvaram Tácito, Cícero e a Bíblia, e por que as fontes históricas desmentem a tal Idade das Trevas.

Por Redação Educando em Casa · · 12 min de leitura

Compartilhe WhatsApp Telegram Facebook
Pintura de Jan van Eyck: o chanceler Nicolas Rolin, de mãos postas diante de um livro manuscrito iluminado aberto, ajoelhado diante da Virgem com o Menino, sob arcos que dão para uma cidade e um rio
A Virgem do Chanceler Rolin, Jan van Eyck, c. 1435, Museu do Louvre, Paris, domínio público (via Wikimedia Commons)

Em 4 de junho de 716, o abade Ceolfrith saiu do mosteiro de Wearmouth-Jarrow, no norte da Inglaterra, a caminho de Roma. Levava um presente para o papa: a Bíblia inteira em latim, num volume só, com mais de mil folhas de pergaminho e mais de 34 quilos. Ceolfrith morreu na estrada, em setembro, em Langres, na França. Os companheiros seguiram viagem e entregaram o livro.

Esse volume existe até hoje. Chama-se Codex Amiatinus, está na Biblioteca Medicea Laurenziana, em Florença, e é a mais antiga Bíblia latina completa que se conhece. Foi feito à mão, por monges, numa sala de cópia.

A resposta curta

Os monges copistas eram religiosos que, nos mosteiros da Idade Média, copiavam livros à mão numa sala chamada scriptorium. Copiavam a Bíblia e os Pais da Igreja, mas também gramáticos, poetas, filósofos e historiadores pagãos. Boa parte da literatura latina antiga chegou até nós porque passou por essas mãos, e é por isso que a ideia de uma "Idade das Trevas" inimiga dos livros não se sustenta diante das fontes.

O que era o scriptorium, e por que um monge copiava livros?

A resposta começa na Regra de São Bento, escrita no século VI e depois espalhada pelos mosteiros do Ocidente. O capítulo 48 abre com uma frase seca: "A ociosidade é inimiga da alma". Por isso o dia do monge se dividia entre oração, trabalho com as mãos e leitura. A mesma regra manda que, no começo da Quaresma, cada monge receba um livro da biblioteca e o leia do começo ao fim.

Um mosteiro que obriga a ler precisa ter livros. E quem precisa de livros, num mundo sem imprensa, precisa copiá-los.

Na mesma época, na Calábria, no sul da Itália, um antigo ministro dos reis godos chamado Cassiodoro fundou o mosteiro de Vivarium e escreveu para os seus monges as Institutiones, um roteiro de estudos que ia da Bíblia às artes liberais. No capítulo 30 do primeiro livro, ele confessa que, de todos os trabalhos do corpo, o que mais lhe agrada é o dos copistas. O motivo: o copista consegue "pregar aos homens com a mão" e "abrir as línguas com os dedos". E acrescenta que Satanás recebe tantas feridas quantas palavras do Senhor o copista transcreve.

Para esses homens, copiar era uma forma de oração. A fé cristã nasceu presa a textos escritos. O apóstolo Paulo, no fim da vida, pede a Timóteo: "Quando vieres, traze a capa que deixei em Trôade, em casa de Carpo, bem como os livros, especialmente os pergaminhos" (2 Timóteo 4.13, ARA). Os mosteiros herdaram esse apego.

O lugar desse trabalho aparece desenhado na Planta de Saint Gall, feita na abadia de Reichenau entre 819 e 826 e guardada até hoje na biblioteca da abadia de Saint Gall, na Suíça. É o projeto de um mosteiro ideal. No desenho, a biblioteca tem o seu espaço, e uma das salas leva a inscrição latina sedes scribentium: "o lugar dos que escrevem".

Como se fazia um livro à mão?

Primeiro vinha o rebanho. O pergaminho é pele de bezerro, carneiro ou cabra, lavada, raspada, esticada e seca até virar folha, e cada pele rende poucas folhas grandes. O especialista em manuscritos Christopher de Hamel calcula que as folhas do Codex Amiatinus consumiram a pele de cerca de 515 animais. E Wearmouth-Jarrow não fez uma Bíblia dessas: fez três ao mesmo tempo, uma para cada uma das suas duas casas e a terceira para o papa.

Depois vinham a pena, a tinta, a régua para riscar as linhas e muita paciência. O trabalho doía. Numa cópia do século VIII da Regra Pastoral de São Gregório Magno, hoje na Biblioteca Nacional da França, o copista deixou um recado na última página, no que se chama colofão: "Quem não sabe escrever acha que isso não dá trabalho. Três dedos escrevem, o corpo inteiro trabalha. Orai por mim, vós que lerdes este livro."

Com o tempo, a própria letra mudou. No fim do século VIII, a reforma de Carlos Magno pediu livros corretos e legíveis. A Admonitio generalis, de 789, mandou que mosteiros e catedrais mantivessem escolas para os meninos aprenderem salmos, canto, cômputo e gramática, e que os livros fossem bem corrigidos. Dessa reforma saiu a minúscula carolíngia, uma letra clara e regular, da qual descendem as letras minúsculas deste parágrafo.

Que livros da Antiguidade sobreviveram graças aos mosteiros?

Comece pelo tamanho do esforço. O paleógrafo alemão Bernhard Bischoff passou a vida descrevendo os manuscritos copiados no continente europeu no século IX. O levantamento dele chega a pelo menos 7.000 livros dessa época que sobreviveram até hoje.

7.000manuscritos do século IX que chegaram até nós, no levantamento de Bernhard BischoffThe Medieval Review, 2001
515peles de animal para as folhas de uma só Bíblia, o Codex AmiatinusChristopher de Hamel, 2016
1manuscrito, e só um, guardou os seis primeiros livros dos Anais de TácitoBiblioteca Medicea Laurenziana, Plut. 68.1

Agora, os casos. Os seis primeiros livros dos Anais de Tácito, o maior historiador do Império Romano, sobreviveram num único manuscrito medieval, copiado na Alemanha, muito provavelmente na abadia beneditina de Fulda. Os livros 11 a 16 e as Histórias dependem de outro manuscrito único, escrito no século XI em Monte Cassino, o mosteiro fundado por São Bento. Os dois estão hoje em Florença. Se o fogo ou a umidade tivessem alcançado qualquer um deles, boa parte do que sabemos sobre Tibério, Cláudio e Nero teria desaparecido.

Lucrécio é o caso mais curioso. O poema Sobre a natureza das coisas ensina que o mundo é feito de átomos e que os deuses não se ocupam dos homens: uma filosofia oposta à fé de quem o copiava. Mesmo assim, foi copiado no século IX, e as duas cópias mais antigas estão hoje em Leiden, na Holanda. Em 1417, durante o Concílio de Constança, o humanista Poggio Bracciolini achou outra cópia medieval num "lugar bem distante", que ele nem se deu ao trabalho de nomear, e pôs o poema de novo em circulação. Os copistas guardaram até o livro que discordava deles.

E o grego? Aqui a honestidade pede um passo para o lado. No Ocidente latino, pouca gente lia grego nos primeiros séculos medievais, e a maior parte da literatura grega sobreviveu no Império Bizantino, com os seus copistas, bispos e mosteiros, além das traduções para o árabe. O manuscrito mais antigo de boa parte dos diálogos de Platão foi copiado em 895 por João, o Calígrafo, para o bispo Aretas. Em 1801, o viajante inglês Edward Daniel Clarke o comprou num mosteiro da ilha de Patmos, e ele está hoje na Biblioteca Bodleiana, em Oxford. Mais uma vez, foi um mosteiro que guardou o livro por séculos.

Os monges também apagaram livros antigos?

Apagaram, e não há por que esconder. O pergaminho era caro, e um livro velho podia ser lavado e raspado para receber um texto novo. O resultado se chama palimpsesto.

Na abadia de Bobbio, no norte da Itália, um códice do século IV com o diálogo Da República, de Cícero, foi apagado no século VII ou VIII para receber o comentário de Santo Agostinho aos Salmos. Em 1229, um sacerdote chamado Ioannes Myronas raspou um volume com tratados de Arquimedes, entre eles O Método, para fazer um livro de orações.

Só que a história dá uma segunda volta. Como o pergaminho ficou guardado, a escrita de baixo sobreviveu. Em 1819, o filólogo Angelo Mai, recém-chegado à Biblioteca Vaticana, leu o texto de Cícero por baixo das linhas de Agostinho, no manuscrito Vat. lat. 5757. O livro de orações de 1229 virou o Palimpsesto de Arquimedes, estudado com luz especial no Walters Art Museum, em Baltimore, e é o único lugar onde O Método sobreviveu. Mesmo quando apagou, o mosteiro foi o cofre de onde o texto saiu.

De onde veio a ideia de "Idade das Trevas"?

Veio de um admirador de Roma. Francesco Petrarca, poeta italiano do século XIV, descreveu os séculos depois da queda do Império como um tempo escuro. No poema África, de cerca de 1343, ele espera que, "dissipadas as trevas", as gerações futuras possam voltar "ao puro brilho antigo".

O historiador Theodor Mommsen mostrou, num artigo de 1942 na revista Speculum, que foi Petrarca quem deu à velha imagem cristã da luz e das trevas um sentido de história da cultura. A luz passou a ser a Roma pagã, e a treva, os séculos cristãos que vieram depois.

O detalhe que fecha a discussão: Petrarca leu os seus clássicos em cópias feitas nesses mesmos séculos. A Encyclopaedia Britannica registra que hoje os historiadores quase não usam o termo, por causa do juízo de valor que ele carrega. A treva estava mais no olhar de quem julgava do que nas bibliotecas.

O que os copistas ensinam a quem educa os filhos em casa?

Três coisas, sem romantismo.

A primeira: a tradição não se mantém sozinha. Cada texto antigo que lemos hoje passou por uma corrente de pessoas que decidiram copiá-lo, corrigi-lo e guardá-lo. Quando uma família lê em voz alta Virgílio, Agostinho ou a Bíblia, entra nessa corrente. É o espírito da educação clássica e do Trivium, e é por isso que o Renascimento pôde pintar os sábios antigos como velhos conhecidos, como se vê em quem é cada um na Escola de Atenas.

A segunda: a cópia lenta ensina. O monge que copiava um texto o lia palavra por palavra, e muitas vezes o sabia de cor no fim. Copiar à mão um trecho bom, com atenção, continua sendo um dos jeitos mais antigos de aprender a escrever bem. E a língua que eles copiavam segue aberta a qualquer criança, como mostra o texto sobre latim para crianças.

A terceira é sobre quem guarda o saber. Mesmo quando o imperador pediu escolas e livros corretos, quem fez o trabalho foram comunidades pequenas, com regra própria, que tomaram para si a tarefa de ensinar e preservar. A família que educa em casa faz algo parecido, em escala menor, e a Escritura já a colocou nesse lugar: veja os pais como primeiros educadores.

Perguntas frequentes

Quem foram os monges copistas?

Eram monges que, nos mosteiros medievais, copiavam livros à mão. Copiavam a Bíblia, os Pais da Igreja e também autores pagãos da Grécia e de Roma, como Cícero, Tácito e Lucrécio.

O que era o scriptorium?

Era a sala do mosteiro onde se copiavam os livros. A Planta de Saint Gall, desenhada entre 819 e 826, marca esse espaço com a inscrição latina sedes scribentium, "o lugar dos que escrevem".

Por que os monges copiavam autores pagãos?

Porque estudavam gramática, retórica e as artes liberais nos autores antigos, e porque a regra dos mosteiros fazia da leitura e do trabalho parte da vida de oração. Cassiodoro, no século VI, montou para os seus monges um roteiro que ia da Bíblia às artes liberais.

A Idade Média foi mesmo a Idade das Trevas?

A expressão vem de Petrarca, no século XIV, que chamou de escuros os séculos depois de Roma. Os historiadores de hoje quase não a usam, e os milhares de manuscritos copiados nesses séculos mostram o contrário.

Os monges também destruíram livros antigos?

Às vezes raspavam pergaminhos velhos para escrever textos novos, os palimpsestos. Foi assim com um códice de Cícero em Bobbio e com tratados de Arquimedes em 1229. Como o pergaminho ficou guardado, a escrita de baixo pôde ser lida séculos depois.

Fontes

  1. Regra de São Bento, capítulo 48 (século VI), Order of Saint Benedict: https://archive.osb.org/lectio/rbonld.html
  2. Cassiodoro, Institutiones, livro I, capítulo 30 (século VI), texto latino editado por James J. O'Donnell: https://www.asu.edu/lib/jod/texts/cassinst1.html
  3. Beda, Vidas dos santos abades de Wearmouth e Jarrow (século VIII), Internet Medieval Sourcebook, Fordham University: https://sourcebooks.fordham.edu/basis/bede-jarrow.asp
  4. Máirín MacCarron, "From Jarrow to Rome: celebrating 1300 years of an Anglo-Saxon masterpiece", History Matters, Universidade de Sheffield, 2016: https://historymatters.sites.sheffield.ac.uk/blog-archive/2016/from-jarrow-to-rome-celebrating-1300-years-of-an-anglo-saxon-masterpiece
  5. Christopher de Hamel, Meetings with Remarkable Manuscripts, Allen Lane, 2016 (estimativa das 515 peles), citada em: https://en.wikipedia.org/wiki/Codex_Amiatinus
  6. Planta de Saint Gall, Stiftsbibliothek St. Gallen, Cod. Sang. 1092 (c. 819 a 826), verbete "Plan of Saint Gall": https://en.wikipedia.org/wiki/Plan_of_Saint_Gall
  7. Thijs Porck, "Scribal complaints: Early medieval English copyists and their colophons", 2017 (colofão de Paris, BnF, lat. 9561, fol. 81v): https://thijsporck.com/2017/06/12/scribal-complaints/
  8. Admonitio generalis (789), edição de H. Mordek, K. Zechiel-Eckes e M. Glatthaar, MGH Fontes iuris 16, 2012: https://en.wikipedia.org/wiki/Admonitio_generalis
  9. Michael Gorman, resenha de Bernhard Bischoff, Katalog der festländischen Handschriften des neunten Jahrhunderts, The Medieval Review 01.01.19, 2001: https://scholarworks.iu.edu/journals/index.php/tmr/article/view/15030
  10. Biblioteca Medicea Laurenziana, Plut. 68.1 e 68.2 (os dois manuscritos de Tácito, séculos IX e XI), em Roger Pearse, "Tacitus and his manuscripts": https://www.tertullian.org/rpearse/tacitus/
  11. Leiden, Universiteitsbibliotheek, VLF 30 (Lucrécio, Codex Oblongus, início do século IX), Medieval Manuscripts in Dutch Collections: https://mmdc.nl/static/site/highlights/352/Scribe_and_corrector.html
  12. "Poggio Rediscovers Lucretius's De rerum natura" (1417), History of Information: https://www.historyofinformation.com/detail.php?id=3218
  13. Oxford, Bodleian Library, MS. E. D. Clarke 39 (Platão, 895): https://medieval.bodleian.ox.ac.uk/catalog/manuscript_4004
  14. Biblioteca Apostolica Vaticana, Vat. lat. 5757 (Cícero, Da República, palimpsesto de Bobbio), Vatican Palimpsests: https://spotlight.vatlib.it/palimpsests/catalog/Vat_lat_5757
  15. Biblioteca Apostolica Vaticana, "Angelo Mai and the palimpsests" (1819), Vatican Palimpsests: https://spotlight.vatlib.it/palimpsests/feature/angelo-mai-and-the-palimpsests
  16. NPR, "A Prayer Book's Secret: Archimedes Lies Beneath", 2006: https://www.npr.org/2006/07/27/5583668/a-prayer-books-secret-archimedes-lies-beneath
  17. Theodor E. Mommsen, "Petrarch's Conception of the 'Dark Ages'", Speculum, v. 17, n. 2, 1942, p. 226 a 242: https://doi.org/10.2307/2856364
  18. Encyclopaedia Britannica, "Dark Ages" (consultada em 22/10/2026): https://www.britannica.com/event/Dark-Ages
  19. Bíblia Sagrada, Almeida Revista e Atualizada, 2 Timóteo 4.13, Sociedade Bíblica do Brasil, 1993: https://www.bibliaonline.com.br/ara/2tm/4

Relacionadas

Dentro da plataforma

Fundamental I

Do 1º ao 5º ano: alfabetização, matemática, história, ciências, latim e inglês, com gabarito que fala ao pai.

No Instagram

@portaleducandoemcasa

Seguir no Instagram