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Socialização no homeschooling: o que a pesquisa mostra sobre a criança que estuda em casa

Socialização no homeschooling: o que três décadas de pesquisa mostram, onde os estudos são fracos e onde a criança que estuda em casa convive de verdade.

Por Redação Educando em Casa · · 22 min de leitura

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Jogos Infantis, de Pieter Bruegel, o Velho: centenas de crianças de várias idades brincando juntas numa praça
Jogos Infantis, Pieter Bruegel, o Velho, 1560, Kunsthistorisches Museum, Viena, domínio público (via Wikimedia Commons)

O almoço de domingo vai bem até a sobremesa. Alguém pergunta se as crianças continuam estudando em casa, você diz que sim, e vem a frase que toda família que educa os filhos conhece de cor: "Mas e a socialização?". A mesa fica em silêncio, esperando a resposta.

A pergunta é honesta na maioria das vezes. Quem a faz cresceu achando que é na escola que a criança aprende a conviver, porque foi lá que ele mesmo passou doze anos. A boa notícia é que a pergunta já foi estudada, e há décadas. A má notícia é que quase ninguém leu os estudos.

A resposta curta

A socialização da criança que estuda em casa acontece na família, na igreja, no esporte, na música, na vizinhança e com outras famílias. As revisões de pesquisa mais citadas, como as de Richard Medlin (2000 e 2013, Peabody Journal of Education) e a de Kunzman e Gaither (2020, Other Education), não encontraram prejuízo social nas crianças educadas em casa em comparação com as da escola. Em vários indicadores, elas se saem melhor. O limite da pesquisa é que a maioria dos estudos usa amostras de voluntários, e o ponto de atenção é real: a convivência não acontece sozinha, a família precisa construí-la.

O que é socialização, afinal?

Antes de discutir o resultado, é preciso acertar a palavra, porque cada pessoa na mesa está pensando numa coisa diferente. O psicólogo Richard Medlin, da Universidade Stetson, na Flórida, que pesquisa o desenvolvimento de crianças educadas em casa desde 1993, separou os três sentidos que as pessoas costumam dar a ela na revisão que publicou em 2000:

  • atividade social: brincar com amigos, praticar esporte, participar de festas e apresentações;
  • influência social: aprender a se ajustar ao que a maioria pensa e faz;
  • exposição social: conhecer gente de outras culturas, crenças e jeitos de viver.

Os três entram na conversa, mas nenhum deles é a definição que a psicologia usa. Medlin adota a da pesquisadora Eleanor Maccoby (2007): socialização é o processo pelo qual a criança adquire as habilidades, os padrões de comportamento, os valores e as motivações de que precisa para funcionar bem na cultura em que está crescendo.

Repare no que essa definição pede: que a criança saiba se comportar, que tenha valores e que consiga viver bem entre os outros. Ela não diz em que lugar isso precisa acontecer, nem quantas crianças da mesma idade precisam estar em volta. E a mesma literatura lembra onde está o centro desse processo. Os pesquisadores Joan Grusec e Maayan Davidov escreveram em 2010, na revista Child Development, que há um argumento forte para dizer que o contexto principal da socialização é a família.

Quando alguém pergunta "e a socialização?", quase sempre está pensando no primeiro sentido (com quem a criança brinca) e às vezes no segundo (se ela vai ser "diferente"). A pergunta que a pesquisa faz é outra, e mais exigente: essa criança está aprendendo a viver bem com os outros?

O que a pesquisa encontrou nas crianças que estudam em casa?

A primeira grande revisão sobre o tema saiu em 2000, num número especial do Peabody Journal of Education, a revista da Universidade Vanderbilt, dedicado à educação domiciliar. Medlin reuniu os estudos feitos até ali e concluiu que as crianças educadas em casa participavam da rotina das suas comunidades, não estavam isoladas, tinham boa autoestima e tendiam a apresentar menos problemas de comportamento que as outras.

Em 2013, ele voltou ao assunto na mesma revista, agora só com os estudos publicados depois da primeira revisão. O resumo do artigo diz que, comparadas às crianças da escola, as educadas em casa têm amizades de melhor qualidade e melhor relação com os pais e com outros adultos, são felizes e satisfeitas com a vida, e na adolescência mostram forte senso de responsabilidade social e menos problemas de comportamento. A conclusão dele, depois de três décadas de pesquisa, é direta: a resposta à pergunta da socialização "é claramente sim".

Três estudos ajudam a entender de onde vem essa conclusão, porque fogem do questionário respondido pelos próprios pais.

O estudo das crianças filmadas brincando. Em 1992, Larry Shyers defendeu na Universidade da Flórida uma tese com 70 crianças que sempre tinham estudado em casa e 70 que sempre tinham ido à escola, todas de 8 a 10 anos. Os dois grupos foram pareados por idade, raça, sexo, tamanho da família, renda e número de atividades fora de casa. As crianças foram filmadas em pequenos grupos, brincando numa sala com brinquedos e depois montando quebra-cabeças em equipe. Dois observadores, que não sabiam qual criança vinha de qual grupo, marcaram o comportamento de cada uma numa lista de 97 comportamentos-problema, como brigar, se gabar, perturbar os outros e se isolar. A média de comportamento-problema das crianças da escola foi mais de oito vezes maior que a das crianças educadas em casa. Nos testes de autoconceito e de assertividade, não houve diferença entre os grupos.

O estudo do diário de contatos. Em 1994, a pesquisadora Chatham-Carpenter pediu a adolescentes de 12 a 18 anos que anotassem, durante um mês, toda conversa de mais de dois minutos que tivessem com alguém. Os educados em casa falaram com 49 pessoas diferentes no mês; os da escola pública, com 56. A diferença não foi estatisticamente significativa. O que mudou foi a composição da lista: a dos alunos da escola era quase toda de colegas da mesma idade, e a dos educados em casa trazia também crianças mais novas e adultos. Os alunos da escola tinham contatos mais frequentes e se diziam mais próximos das pessoas da lista, o que mostra que o estudo não favorece um lado só.

O estudo dos professores. Em 2004, numa tese na Universidade George Fox, no Oregon, Haugen comparou adolescentes educados em casa e adolescentes da escola usando, além dos pais e dos próprios jovens, a avaliação de professores. No caso dos que estudavam em casa, avaliaram os professores das aulas que eles faziam fora de casa. Segundo Medlin, as diferenças foram grandes: os educados em casa receberam notas mais altas em habilidades sociais, e os da escola, notas mais altas em hiperatividade, agressividade, problemas de conduta, depressão e problemas de atenção.

Há outros achados na mesma direção. Num estudo de 2007, McKinley e colegas encontraram menos conflito nas amizades das crianças educadas em casa e mais proximidade com o melhor amigo do que entre as crianças da escola pública. Nenhum desses estudos mostrou crianças isoladas, tímidas ou incapazes de conviver, que é a imagem que a pergunta do almoço carrega.

Onde os estudos mostram resultado misto?

O Defensor da educação domiciliar perde força quando esconde o que não lhe convém, e a pesquisa tem pontos mistos que precisam ser ditos.

Quando as próprias crianças avaliam suas habilidades sociais, o resultado não é uniforme. Medlin reuniu os estudos que usaram a mesma escala, o Social Skills Rating System. Alguns encontraram crianças educadas em casa acima das normas do teste; outros não acharam diferença em relação aos colegas da escola; um estudo de 2004 encontrou meninas educadas em casa com notas mais baixas que as da escola pública em alguns itens, e um de 2012 encontrou alunos da escola pública com nota total mais alta. A conclusão prudente do próprio Medlin é que as crianças educadas em casa acham suas habilidades sociais parecidas com as das outras crianças.

A revisão mais completa até hoje, de Robert Kunzman (Universidade de Indiana) e Milton Gaither (Messiah College), atualizada em 2020, olhou cerca de 100 estudos empíricos sobre socialização. A conclusão geral é favorável: na maioria deles, as crianças educadas em casa não ficam atrás das outras numa série de habilidades sociais, e participam com frequência de atividades em grupo. Mas os autores insistem em três problemas de método: a maioria dos estudos usa amostras de voluntários (e não sorteadas), depende do relato dos próprios pais e filhos, e compara grupos que já eram diferentes antes de qualquer escolha de escola.

Os mesmos autores criticam o uso que o próprio movimento faz de alguns números. O levantamento de Brian Ray com mais de 7.300 adultos educados em casa, publicado em 2004, traz um retrato muito positivo (adultos engajados na comunidade, que votam e fazem trabalho voluntário), mas foi respondido por voluntários convidados a mostrar ao público que a educação domiciliar funciona. É um bom dado para começar a conversa e um dado fraco para encerrá-la.

Há também um levantamento com amostra sorteada que traz um quadro misto: o Cardus Education Survey, feito nos Estados Unidos e no Canadá, citado por Kunzman e Gaither. O número de jovens educados em casa foi pequeno (82 nos Estados Unidos e 58 no Canadá). Os educados em casa por motivo religioso relataram menos clareza sobre os próprios objetivos, menos confiança para lidar com problemas da vida e mais divórcio. Os mesmos jovens, nos Estados Unidos, disseram que a educação os preparou bem para as relações pessoais, as amizades e a vida em família, sobretudo o casamento, e foram os que mais disseram ter sido preparados para uma vida espiritual viva.

Quem leva esse assunto para o grupo da igreja precisa levar os dois lados. O que a pesquisa permite dizer é que não há sinal de prejuízo social e há vários sinais de vantagem. O que ela não permite dizer é que toda criança educada em casa é, por definição, mais sociável.

E quando essas crianças crescem?

O estudo mais sólido sobre a vida adulta saiu em 2021, na revista PLOS ONE, assinado por Ying Chen, Christina Hinton e Tyler VanderWeele, do Programa de Florescimento Humano da Universidade Harvard. Eles acompanharam 12.288 participantes do Growing Up Today Study, filhos de enfermeiras americanas. O tipo de escola foi registrado em 1999, e a vida de cada um foi medida de novo entre 2007 e 2013, já na idade adulta. Os resultados foram ajustados por uma longa lista de diferenças de renda, família e saúde.

Comparados aos que estudaram na escola pública, os educados em casa eram mais propensos a fazer trabalho voluntário, a perdoar, a ter senso de propósito e a frequentar cultos religiosos (51% mais chance de frequência regular). Fumavam menos maconha e tinham tido menos parceiros sexuais. É um retrato de jovens adultos inseridos na comunidade, e não de gente que se fechou.

O mesmo estudo traz dois avisos. Os educados em casa tinham 23% menos chance de concluir uma faculdade, e havia um sinal, que não resistiu à correção estatística mais rigorosa, de mais estresse pós-traumático. O grupo também era pequeno: 187 pessoas educadas em casa, todas filhos de mães com boa escolaridade, como o resto da amostra. Os próprios autores lembram que esses limites pedem cautela.

Para o tema deste artigo, o que importa é que o estudo de Harvard mediu justamente aquilo que a pergunta do almoço teme: a vida em sociedade. E encontrou mais voluntariado, mais perdão e mais vida comunitária, e não menos.

A convivência acontece sozinha?

Não, e é aqui que a pesquisa traz a lição mais útil para quem educa em casa.

Em 2014, a psicóloga Sharon Green-Hennessy, da Universidade Loyola de Maryland, publicou no Journal of Adolescence uma análise da Pesquisa Nacional sobre Uso de Drogas e Saúde dos Estados Unidos, de 2002 a 2011. São 182.351 adolescentes de 12 a 17 anos, dos quais 1.094 estudavam em casa. É uma amostra nacional, e não de voluntários, o que dá peso ao resultado.

Ela dividiu os jovens em quatro grupos: educados em casa ou na escola, com vínculo religioso mais forte ou mais fraco. Os educados em casa com vínculo religioso mais fraco tinham cerca de duas vezes e meia mais chance do que os colegas de escola com vínculo igualmente fraco de não ter participado de nenhuma atividade extracurricular (esporte, clube, grupo, atividade de igreja) no ano anterior, e 23,4% deles estavam nessa situação. Os educados em casa com vínculo religioso mais forte tinham cerca de 60% menos chance desse isolamento do que o grupo de comparação. Mais de 90% dos jovens com vínculo religioso forte participavam de alguma atividade ligada à fé.

O dado diz duas coisas ao mesmo tempo. A primeira: a educação domiciliar, por si só, não garante convivência. Uma família que tira o filho da escola e não põe nada no lugar pode, sim, deixá-lo sozinho. A segunda: a família que vive dentro de uma comunidade de fé, com culto, grupo de jovens, coral, trabalho voluntário e amigos de outras famílias, oferece ao filho uma rede de convivência que protege mais do que a própria escola.

Kunzman e Gaither registram a mesma coisa por outro caminho: alguns estudos mostram que os educados em casa às vezes relatam mais sensação de isolamento, e que os que têm mais contato com outros jovens se saem melhor nos testes de socialização. Medlin observou ainda que essas crianças parecem depender mais da qualidade das suas poucas amizades próximas. Não é defeito do modelo. É a descrição do trabalho que a família tem pela frente.

E a socialização que a escola oferece?

A pergunta do almoço parte de uma ideia que quase nunca é examinada: a de que a escola socializa bem. Os números ajudam a examinar essa ideia, sem exagero e sem generalizar para toda escola e todo professor.

Em 2001, os sociólogos Steven Brint, F. M. Contreras e T. M. Matthews publicaram na revista Sociology of Education um estudo em que observaram 64 salas de aula de escolas públicas de ensino fundamental nos Estados Unidos e registraram cada mensagem de socialização que os professores passavam aos alunos. Segundo o resumo de Medlin, 84% dessas mensagens eram para fazer os alunos ficarem quietos, não perguntarem sem permissão ou voltarem a atenção para a tarefa, para trabalharem mais rápido e terminarem no horário. As mensagens sobre cooperação foram 2%; sobre autocontrole, 1%; sobre responsabilidade, 1%; sobre respeito às diferenças entre grupos, 0,3%. Não é culpa de cada professor: é o que uma sala cheia costuma exigir de quem a conduz.

No Brasil, o retrato mais recente é a Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE) de 2024, do IBGE, divulgada em 25 de março de 2026, com estudantes de 13 a 17 anos de escolas públicas e privadas:

  • 27,2% disseram ter sofrido bullying duas ou mais vezes nos 30 dias anteriores à pesquisa; em 2019 eram 23,0%;
  • 13,7% disseram ter praticado bullying no mesmo período;
  • o bullying aparece quase igual na rede pública (27,2%) e na privada (27,5%);
  • 26,1% disseram sentir que ninguém se preocupa com eles;
  • 4,5% disseram não ter nenhum amigo próximo.

Esses números não provam que a escola faz mal, e o portal não diz isso. Eles provam uma coisa mais simples: estar todos os dias cercado de colegas da mesma idade não garante amizade, cuidado nem convivência saudável. Um em cada quatro adolescentes brasileiros na escola sente que ninguém se importa com ele. A socialização escolar também tem falhas, e elas não costumam entrar na pergunta do almoço.

Há ainda uma questão de desenho. A sala dividida por idade, com o sinal marcando o começo e o fim de cada atividade, é uma forma recente de organizar a infância, que tem história e origem, contada em a escola que conhecemos nasceu na Prússia. Em 1560, Pieter Bruegel, o Velho, pintou uma praça flamenga tomada por mais de 230 crianças ocupadas com 83 brincadeiras diferentes, segundo o Kunsthistorisches Museum de Viena, onde o quadro está. Há pequenos e grandes, meninos e meninas, todos misturados. Ninguém ali foi separado por série.

Onde a criança que estuda em casa convive, na prática?

O levantamento de 2007 da Fundação Nacional de Pesquisa Educacional do Reino Unido (NFER), citado por Medlin, perguntou às famílias que educam em casa onde os filhos convivem. A lista que saiu é parecida com a de qualquer família brasileira que vive essa escolha: parentes e amigos, grupos locais de educação domiciliar, igreja e outras organizações da comunidade, esporte e internet.

Na rotina, isso costuma virar uma agenda bem concreta:

  • a família ampliada: avós, tios, primos, com quem a criança convive de verdade e não só no Natal;
  • a igreja: o culto, a escola bíblica, o coral, o grupo de jovens, o trabalho voluntário;
  • o esporte e a arte: natação, futebol, judô, aula de música, de desenho, de teatro;
  • os grupos de famílias: encontros semanais, passeios, feiras de ciências, aulas em conjunto;
  • a vizinhança e a cidade: a padaria, a biblioteca, o mercado, o posto de saúde, onde a criança aprende a pedir, agradecer, esperar a vez e falar com adulto;
  • o serviço: ajudar um vizinho idoso, visitar um asilo, participar de uma campanha da igreja.

Uma diferença que aparece em vários estudos é a idade das pessoas. A criança educada em casa convive menos com colegas exatamente da mesma idade e mais com crianças menores, adolescentes e adultos. Para quem acha que socializar é ter trinta colegas nascidos no mesmo ano, isso parece perda. Para quem pensa na vida adulta, em que ninguém trabalha nem vive só com gente da mesma idade, parece preparo.

Outra observação vem de uma tese de 2007, de Rapaport, na Universidade de Boston, também citada por Medlin: observando famílias que educavam em casa, ela viu que a maior parte das habilidades sociais era ensinada em momentos não planejados, como resposta ao que a criança acabava de fazer. É a briga entre irmãos que vira lição de perdão, a visita que chega e pede que a criança cumprimente, o troco errado na padaria que pede coragem para falar. A convivência em casa ensina o tempo todo, e quem ensina está perto.

Se a sua família está no começo, o guia como começar a educar seu filho em casa ajuda a montar essa rotina desde a primeira semana, e o panorama geral está em homeschooling no Brasil.

O que a Bíblia diz sobre com quem a criança anda?

A Escritura não trata a convivência como detalhe. Trata como formação. "Quem anda com os sábios será sábio, mas o companheiro dos insensatos se tornará mau" (Provérbios 13:20, ARA). O critério bíblico não é a quantidade de colegas, é a qualidade de quem acompanha a criança.

O lugar onde essa formação começa também está dito. "Estas palavras que, hoje, te ordeno estarão no teu coração; tu as inculcarás a teus filhos, e delas falarás assentado em tua casa, e andando pelo caminho, e ao deitar-te, e ao levantar-te" (Deuteronômio 6:6-7, ARA). A casa, o caminho, a hora de dormir e a de acordar: a vida comum é a sala de aula. É o assunto de os pais como primeiros educadores.

Mas a família cristã não foi chamada a viver trancada. "Consideremo-nos também uns aos outros, para nos estimularmos ao amor e às boas obras. Não deixemos de congregar-nos, como é costume de alguns" (Hebreus 10:24-25, ARA). A igreja é o lugar onde a criança aprende a conviver com o idoso, com o bebê, com quem pensa diferente sobre muita coisa e com quem precisa de ajuda. O dado de Green-Hennessy, de 2014, encontra aqui sua explicação mais simples: a família que congrega dá ao filho uma comunidade.

E o próprio Cristo cresceu assim. "E crescia Jesus em sabedoria, estatura e graça, diante de Deus e dos homens" (Lucas 2:52, ARA). Diante de Deus e dos homens. A socialização que a família cristã busca é essa: um filho que cresce em graça diante das pessoas, e não um filho moldado pelo grupo da mesma idade.

O que a lei brasileira diz sobre convivência?

A legislação brasileira usa uma expressão precisa para o que a pergunta do almoço chama de socialização: "convivência familiar e comunitária". Ela está no artigo 227 da Constituição Federal, na redação da Emenda Constitucional 65, de 2010: é dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à criança, com absoluta prioridade, entre outros direitos, "a convivência familiar e comunitária". O artigo 229 completa: os pais têm o dever de assistir, criar e educar os filhos menores.

O Estatuto da Criança e do Adolescente segue a mesma linha. O artigo 19, na redação da Lei 13.257, de 2016, diz que é direito da criança ser criada e educada no seio de sua família, assegurada a convivência familiar e comunitária. A Declaração Universal dos Direitos Humanos, de 1948, no artigo 26, diz que os pais têm prioridade de direito na escolha do gênero de instrução que será ministrada a seus filhos.

Os textos falam em família e em comunidade, nessa ordem, e põem a família em primeiro lugar entre os responsáveis. É a ideia da subsidiariedade: o Estado serve à família e a apoia, não a substitui. O que a lei brasileira diz hoje sobre a educação domiciliar em si, depois da decisão do STF de 2018, está explicado em educação domiciliar é legal no Brasil?.

8 vezesa média de comportamento-problema das crianças da escola em relação às educadas em casa, observadas por avaliadores que não sabiam quem era quem (crianças de 8 a 10 anos)Shyers, Universidade da Flórida, 1992, em Medlin, Peabody Journal of Education, 2000
84%das mensagens de socialização dos professores, em 64 salas de aula, eram para calar, conter ou apressar os alunos; só 2% falavam de cooperaçãoBrint, Contreras e Matthews, Sociology of Education, 2001
27,2%dos estudantes brasileiros de 13 a 17 anos sofreram bullying duas ou mais vezes em 30 diasIBGE, PeNSE 2024, divulgada em 2026

Como responder à pergunta no almoço de domingo?

Sem discurso e sem ironia. A pessoa que pergunta, quase sempre, gosta das crianças e está preocupada com elas. Três frases resolvem a maior parte das conversas:

  1. "A pesquisa já olhou isso." Há mais de trinta anos de estudos, reunidos em revisões como as de Medlin (2013) e de Kunzman e Gaither (2020), e eles não encontraram prejuízo social nas crianças educadas em casa.
  2. "Eles convivem, só que com gente de todas as idades." A família, a igreja, o esporte, os amigos de outras famílias. Diga onde seus filhos estiveram nesta semana: é o argumento mais forte que você tem.
  3. "A escola também tem os seus problemas de convivência." Mais de um em cada quatro adolescentes brasileiros relatou bullying repetido no último mês, segundo o IBGE (PeNSE 2024). Socializar não é estar no meio de muita gente; é aprender a viver bem com as pessoas.

E depois, o mais convincente: deixe que os seus filhos conversem com quem perguntou. Uma criança que olha nos olhos de um adulto, responde com educação e conta o que está lendo encerra o assunto melhor do que qualquer estudo.

Perguntas frequentes

A criança que estuda em casa fica isolada?

A pesquisa não mostra isso. No estudo de Chatham-Carpenter (1994), adolescentes educados em casa falaram com 49 pessoas diferentes em um mês, contra 56 dos alunos da escola pública, uma diferença que não foi estatisticamente significativa. O risco de isolamento existe quando a família não cria vida comunitária: Green-Hennessy (2014) encontrou mais isolamento entre os educados em casa com pouco vínculo religioso, e menos entre os que frequentam uma comunidade de fé.

Estudar em casa deixa a criança tímida ou com dificuldade de conviver?

Os estudos com observadores de fora não confirmam essa ideia. Na tese de Shyers (1992), avaliadores que não sabiam a origem das crianças encontraram mais de oito vezes mais comportamento-problema nas crianças da escola. Em Haugen (2004), professores de fora deram notas mais altas em habilidades sociais aos adolescentes educados em casa.

Como meu filho vai aprender a lidar com conflito e com gente diferente?

Da mesma forma que o adulto aprende: convivendo com pessoas reais em situações reais. Irmãos, primos, colegas do esporte, a igreja, o grupo de famílias e a vida na cidade oferecem conflito e diferença de sobra. A vantagem é que, em casa, há sempre um adulto por perto para transformar a briga em lição.

Os estudos sobre socialização no homeschooling são confiáveis?

Em parte. A maioria usa amostras de voluntários e o relato dos próprios pais e filhos, como apontam Kunzman e Gaither (2020). Os estudos com amostras grandes, como o de Green-Hennessy (2014) e o de Harvard publicado em 2021 na PLOS ONE, são os mais sólidos. O de Harvard encontrou mais voluntariado e mais perdão entre os educados em casa; o de Green-Hennessy mostrou menos isolamento entre os que vivem numa comunidade de fé e mais entre os que não vivem.

A criança educada em casa tem menos chance de fazer faculdade?

No estudo de Harvard (Chen, Hinton e VanderWeele, 2021), os educados em casa tiveram 23% menos chance de concluir um curso superior, num grupo de 187 pessoas. Os autores não tinham notas de desempenho para explicar a diferença. É um dado a acompanhar, e não tem relação direta com a capacidade de conviver.

Fontes

  1. Richard G. Medlin, Homeschooling and the Question of Socialization Revisited, Peabody Journal of Education, 88(3), 2013, https://doi.org/10.1080/0161956X.2013.796825
  2. Richard G. Medlin, Home Schooling and the Question of Socialization, Peabody Journal of Education, 75, 2000, https://www.educacaodomiciliar.fe.unicamp.br/sites/www.educacaodomiciliar.fe.unicamp.br/files/2022-06/Home%20schooling%20and%20the%20question%20of%20socialization..pdf
  3. Robert Kunzman e Milton Gaither, Homeschooling: An Updated Comprehensive Survey of the Research, Other Education, 9(1), 2020, http://icher.org/files/Kunzman_and_Gaither_An%20Updated_Comprehensive_Survey.pdf
  4. Ying Chen, Christina Hinton e Tyler J. VanderWeele, School types in adolescence and subsequent health and well-being in young adulthood: An outcome-wide analysis, PLOS ONE, 2021, https://doi.org/10.1371/journal.pone.0258723
  5. Sharon Green-Hennessy, Homeschooled adolescents in the United States: Developmental outcomes, Journal of Adolescence, 37, 2014, https://doi.org/10.1016/j.adolescence.2014.03.007
  6. Steven Brint, F. M. Contreras e T. M. Matthews, Socialization messages in primary schools: An organizational analysis, Sociology of Education, 74, 2001, https://doi.org/10.2307/2673273
  7. IBGE, Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE) 2024, divulgação de resultados, 2026, https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/media/com_mediaibge/arquivos/4a06479960c4b8510eb91f53e38c9433.pdf
  8. Constituição da República Federativa do Brasil, artigos 227 e 229, 1988 (redação da EC 65, de 2010), https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm
  9. Estatuto da Criança e do Adolescente, Lei 8.069, artigo 19, 1990 (redação da Lei 13.257, de 2016), https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l8069.htm
  10. Declaração Universal dos Direitos Humanos, artigo 26, 1948, https://www.unicef.org/brazil/declaracao-universal-dos-direitos-humanos
  11. Kunsthistorisches Museum Viena, Pieter Bruegel, o Velho, Jogos Infantis, 1560, https://artsandculture.google.com/asset/children%E2%80%99s-games/CQEeZWQPOI2Yjg
  12. Bíblia Sagrada, Almeida Revista e Atualizada (ARA), Sociedade Bíblica do Brasil

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