Pular para o conteúdo
Educando em Casa
BibliotecaA obra

Juramento dos Horácios: o quadro de David, a história de Tito Lívio e o que ele ensina

O Juramento dos Horácios, de David: o que o quadro mostra, a história de Tito Lívio por trás dele e o que Agostinho e a Bíblia dizem sobre família e dever.

Por Redação Educando em Casa · · 11 min de leitura

Compartilhe WhatsApp Telegram Facebook
O Juramento dos Horácios: três irmãos romanos de capacete estendem o braço para as três espadas que o pai ergue, enquanto à direita as mulheres da família choram abraçadas
O Juramento dos Horácios, Jacques-Louis David com Anne-Louis Girodet, 1786 (versão menor do original de 1784 a 1785, no Museu do Louvre), Toledo Museum of Art, Ohio. Domínio público, via Wikimedia Commons.

Três braços erguidos na mesma direção. Um pai que segura três espadas e olha para o alto. Do outro lado da sala, mulheres que choram sem olhar para ninguém. Quem para diante deste quadro sente que alguma coisa vai se partir ao meio, e que não é só uma família.

A resposta curta

O Juramento dos Horácios é a pintura de Jacques-Louis David feita em Roma entre 1784 e 1785 e exposta no Salão de Paris de 1785. Mostra três irmãos romanos jurando ao pai vencer ou morrer por Roma, num duelo contra três irmãos da cidade de Alba. A história vem de Tito Lívio. O juramento, não: o momento é invenção do pintor. A tela virou o grande modelo do neoclassicismo e uma aula sobre o preço do dever, com uma pergunta que Santo Agostinho já tinha feito sobre a mesma história: até onde a cidade pode pedir a vida da família?

O que o quadro mostra?

A cena se passa num pátio romano com três arcos sobre colunas. David divide a tela em três grupos, quase um debaixo de cada arco, e o número três volta o tempo todo: três irmãos, três espadas, três arcos.

À esquerda estão os filhos. Os corpos são retos, as pernas firmes, os braços esticados como lanças. Tudo ali é linha dura.

No centro está o pai. Ele ergue as espadas como quem oferece alguma coisa ao céu, e é para elas que os braços dos filhos apontam.

À direita estão as mulheres, e aqui as linhas se curvam: ombros caídos, cabeças apoiadas umas nas outras, panos que escorregam. A moça de branco é a irmã dos Horácios, noiva de um dos rivais. Ao lado dela está Sabina, mulher de um dos Horácios e irmã dos rivais, personagem que vem da peça Horace, de Pierre Corneille (1640). Atrás das duas, uma mulher mais velha, de manto escuro, cobre duas crianças com o corpo.

O contraste é a lição. De um lado, o dever público, de pé. Do outro, o amor da casa, curvado. Os dois lados sentem com razão o que sentem, e é por isso que a cena pesa tanto.

3,30 m × 4,25 mo tamanho da tela original, no LouvreMuseu do Louvre, cartel da obra (INV. 3692)
1785o Salão de Paris em que o quadro foi exposto, quatro anos antes de 1789Museu do Louvre, material "Étudier une peinture"
1786a segunda versão, menor, hoje em Toledo, nos Estados UnidosGoogle Arts & Culture, Toledo Museum of Art

Quem pintou e quem encomendou o quadro?

Jacques-Louis David nasceu em Paris em 1748 e morreu em Bruxelas em 1825, segundo o cartel do Louvre. A encomenda veio da administração das artes do rei Luís XVI, os Bâtiments du roi, dirigidos pelo conde d'Angiviller. Fazia parte de um programa de reformas dos anos 1770 que queria elevar as artes na França e educar o povo com exemplos de virtude antiga, como registra o material do próprio museu.

Para pintar, David voltou a Roma. Não respeitou o formato que lhe tinham pedido, e mesmo assim a tela recebeu a aprovação oficial.

Uma segunda versão, menor, foi feita em 1786 para o conde de Vaudreuil, com a ajuda do aluno Anne-Louis Girodet, e está no Museu de Arte de Toledo, em Ohio. É ela que ilustra esta página, com um detalhe que o original não tem: uma roca com fio aos pés das mulheres.

Que história Tito Lívio conta?

O episódio está no primeiro livro da História de Roma (Ab Urbe Condita), de Tito Lívio, nos capítulos 24 a 26. Roma, no tempo do rei Túlio Hostílio, está em guerra com Alba Longa. Em cada exército há três irmãos nascidos do mesmo parto, de força e idade parecidas: os Horácios do lado romano, os Curiácios do lado albano. Os chefes das duas cidades combinam que o duelo dos seis decidirá qual cidade manda na outra.

Antes da luta, o sacerdote fecial firma o tratado entre os dois povos, com o sacrifício de um porco. Esse é o único juramento da história em Lívio.

No combate, dois romanos caem logo. O terceiro está inteiro, e os três albanos estão feridos. Ele finge fugir, os inimigos o seguem cada um no seu passo, e ele os mata um por um. Roma vence.

Na volta, a irmã do vencedor reconhece sobre os ombros dele o manto do noivo, que ela mesma tinha feito. Solta os cabelos e chora o morto pelo nome. O irmão a mata ali mesmo, e Lívio registra a frase dele: Sic eat quaecumque Romana lugebit hostem, "assim vá toda romana que chorar um inimigo".

O jovem é julgado por traição (perduellio). Condenado, apela ao povo. O pai o defende e diz que a filha foi morta com justiça. O povo absolve, nas palavras de Lívio, "mais por admiração pela coragem do que pela justiça da causa". Para purificar o crime, o rapaz passa por baixo de uma viga, o tigillum sororium, a "viga da irmã", que os romanos mantinham em pé à custa pública.

O juramento está em Tito Lívio?

Não está. Em Lívio, o juramento é o tratado entre as duas cidades, feito pelos sacerdotes diante dos exércitos. O pai que entrega as espadas aos três filhos não aparece no texto.

A escolha de David diz muito. Ele não pintou a vitória nem o assassinato da irmã. Pintou o instante anterior a tudo, quando ainda não há sangue e só existe a decisão. As mulheres já sabem que alguém da família não volta, de um lado ou do outro.

Por que se diz que o quadro anunciou a Revolução?

Porque veio pouco antes dela e porque o pintor foi parar dentro dela. A tela foi exposta em 1785; a Revolução Francesa começou em 1789. Leitores posteriores passaram a ver nos três braços erguidos o sacrifício do cidadão pela república.

Os fatos da vida de David dão força a essa leitura. Ele foi deputado de Paris desde 1792, segundo o Louvre. Entrou para o Clube dos Jacobinos, presidiu a Convenção por pouco tempo e votou pela execução de Luís XVI, segundo a biografia publicada pelo Museu de Arte de Cleveland. Em 1793, a Convenção lhe encomendou o quadro de Marat assassinado, que o Louvre descreve como a obra em que David transforma Marat em ícone da Revolução. Depois da queda de Napoleão, partiu para o exílio na Bélgica em 1816 e morreu em Bruxelas em 1825, sem direito a ser enterrado na França.

A ironia é grande: a tela encomendada pela coroa para ensinar lealdade terminou associada ao homem que votou a morte do rei. A virtude que ela mostra é verdadeira; o que muda tudo é a quem ela é entregue. Quando a nação ocupa o lugar mais alto, a família e a fé passam a ser tratadas como obstáculos.

O que Santo Agostinho viu nessa mesma história?

Séculos antes de David, Agostinho leu o mesmo trecho de Lívio e não se impressionou com a glória. No livro III de A Cidade de Deus, capítulo 14, ele chama a guerra contra Alba de injusta, travada entre povos aparentados, e aponta a causa: libido dominandi, a ânsia de dominar, que "agita e esmaga o gênero humano com grandes males".

Sobre a irmã, Agostinho escreve uma frase que inverte o quadro: Humanior huius unius feminae quam universi populi Romani mihi fuisse videtur affectus. Em português: o sentimento desta única mulher me parece ter sido mais humano que o do povo romano inteiro. Ele pergunta por que Roma louvava quem chorava os inimigos vencidos e condenava a moça que chorou o noivo.

É o olhar cristão sobre a mesma cena: o lado das lágrimas não é o lado fraco.

O que o quadro ensina sobre virtude, família e dever?

A coragem dos irmãos é virtude de verdade. Dar a vida pelos seus é o maior amor, nas palavras de Cristo: "Ninguém tem maior amor do que este: de dar alguém a própria vida em favor dos seus amigos" (João 15.13). O quadro não está errado em honrar o sacrifício.

A cidade, porém, não é Deus. O velho Horácio entrega os filhos a Roma sem pôr limite nenhum. O cristão serve à sua terra e paga o que deve, mas sabe a fronteira: "Dai, pois, a César o que é de César e a Deus o que é de Deus" (Mateus 22.21). E, quando as duas lealdades se chocam, os apóstolos já responderam: "Antes, importa obedecer a Deus do que aos homens" (Atos 5.29).

As lágrimas da casa não são traição. Em Lívio, a irmã morre por chorar. A fé cristã manda o contrário: "Alegrai-vos com os que se alegram e chorai com os que choram" (Romanos 12.15). Uma pátria que proíbe o luto já pediu mais do que lhe cabe.

A família vem antes do Estado, e não depois. O mandamento "Honra teu pai e tua mãe" (Êxodo 20.12) foi dado à casa, não à cidade. O Estado existe para servir as famílias que o formam, e não para formá-las à sua imagem. A educação dos filhos começa nesse ponto, e é por isso que o portal trata os pais como primeiros educadores. A ideia contrária, a de que a criança pertence primeiro ao Estado, também tem história, e ela passa pela escola que conhecemos, nascida na Prússia.

Como olhar o quadro com os filhos?

Um bom começo é cobrir com a mão o lado direito e descrever só o esquerdo. Depois, o contrário. A criança percebe sozinha que as linhas mudam: retas de um lado, curvas do outro.

Só então vale contar a história de Lívio e deixar a pergunta de Agostinho na mesa do jantar. É o caminho da leitura de imagem da educação clássica: primeiro observar, depois nomear, por último julgar. Para quem já fez a visita guiada à Escola de Atenas, é o mesmo exercício em outra sala do museu. E as palavras latinas do caso, como perduellio e tigillum sororium, rendem uma boa conversa para quem já começou o latim com as crianças.

Perguntas frequentes

Onde está o quadro O Juramento dos Horácios?

O original está no Museu do Louvre, em Paris, na ala Denon, segundo o cartel da obra. Mede 3,30 m por 4,25 m. Uma versão menor, de 1786, está no Museu de Arte de Toledo, em Ohio, nos Estados Unidos.

O juramento dos Horácios aconteceu de verdade?

A luta dos Horácios contra os Curiácios é uma narrativa das origens de Roma contada por Tito Lívio. A cena do pai entregando as espadas não está em Lívio: é criação de David.

Quem são as mulheres do lado direito?

A moça de branco é a irmã dos Horácios, noiva de um dos Curiácios. Ao lado dela está Sabina, mulher de um dos Horácios e irmã dos Curiácios, personagem da peça Horace, de Corneille. A mulher de manto escuro protege duas crianças.

O que aconteceu com a irmã dos Horácios?

Segundo Lívio, ela chorou o noivo morto ao ver o irmão voltar com o manto dele, e o irmão a matou. Ele foi julgado por traição e absolvido pelo povo, mais pela coragem do que pela justiça da causa.

O que Santo Agostinho disse sobre os Horácios?

Em A Cidade de Deus, livro III, capítulo 14, ele chama a guerra contra Alba de injusta, movida pela ânsia de dominar, e diz que a dor da irmã foi mais humana que a do povo romano inteiro.

Fontes

  1. Tito Lívio, Ab Urbe Condita, livro I, capítulos 24 a 26, texto latino (século I a.C.), The Latin Library: https://www.thelatinlibrary.com/livy/liv.1.shtml
  2. Santo Agostinho, De Civitate Dei, livro III, capítulo 14, texto latino (século V), The Latin Library: https://www.thelatinlibrary.com/augustine/civ3.shtml
  3. Santo Agostinho, The City of God, livro III, capítulo 14, tradução de Marcus Dods (Nicene and Post-Nicene Fathers, 1887), New Advent: https://www.newadvent.org/fathers/120103.htm
  4. Museu do Louvre, cartel de Le Serment des Horaces (INV. 3692) e material pedagógico "Étudier une peinture", Mediterranees.net: https://mediterranees.net/polyxenia/louvre2/documents/Serment_Horaces.pdf
  5. Museu do Louvre, "Une icône de la Révolution", exposição Jacques-Louis David (2025 a 2026): https://www.louvre.fr/expositions-et-evenements/expositions/jacques-louis-david/oeuvres-en-lumiere/une-icone-de-la-revolution
  6. Toledo Museum of Art, The Oath of the Horatii (1786), Google Arts & Culture: https://artsandculture.google.com/asset/the-oath-of-the-horatii/pQHdi199vQiPkw
  7. Wikimedia Commons, Jacques-Louis David, Oath of the Horatii (versão de Toledo, 1786), domínio público: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Jacques-Louis_David_-_Oath_of_the_Horatii_-_Google_Art_Project.jpg
  8. Cleveland Museum of Art, ficha 1956.781, biografia de Jacques-Louis David: https://openaccess-api.clevelandart.org/api/collectiononline/metadata/1956.781
  9. Pierre Corneille, Horace (1640; edição Courbé, 1641), Wikisource: https://fr.wikisource.org/wiki/Horace_(Corneille)
  10. Bíblia Sagrada, Almeida Revista e Atualizada (ARA), João 15.13, Mateus 22.21, Atos 5.29, Romanos 12.15 e Êxodo 20.12, Bíblia Online: https://www.bibliaonline.com.br/ara

Relacionadas

Dentro da plataforma

Fundamental I

Do 1º ao 5º ano: alfabetização, matemática, história, ciências, latim e inglês, com gabarito que fala ao pai.

No Instagram

@portaleducandoemcasa

Seguir no Instagram